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Anorgasmia Feminina - Parte 2 - A cura

  • Foto do escritor: Shantideva
    Shantideva
  • 11 de set.
  • 5 min de leitura

Na primeira parte do texto sobre a anorgasmia feminina, dissemos que a anorgasmia é uma das mais comuns angústias sexuais que as mulheres enfrentam. Trata-se da dificuldade ou inabilidade de experimentar orgasmos em suas práticas sexuais, sozinha ou acompanhada. 


Apesar de ser bastante comum, poucas mulheres têm conseguido se mover em direção a trabalhar esta angústia e ressignificar a sua relação com o prazer. Predominam as escolhas por silenciar-se e se conformar com a “condição” de mulher anorgásmica ou seguir alimentando a esperança que algum parceiro(a) será capaz de despertar a chama orgástica e por fim a este estado de frustração e angústia.


Anorgasmia não é fracasso: é um convite à escuta do corpo

A ausência do orgasmo não é um defeito, não é sinal de fracasso, nem tampouco uma falha pessoal. Trata-se na verdade da maneira como um corpo que não se sente seguro encontrou para não correr riscos. Todos aqueles que se debruçam sobre o tema sabem que o orgasmo e o prazer têm um poder transformador na vida de uma mulher — não apenas no nível físico, mas também no emocional, energético e existencial. Quando uma mulher se permite sentir profundamente, habitar seu corpo com liberdade e expressar seu prazer sem culpa ou vergonha, ela se reconecta com uma fonte vital de poder interior. O prazer desperta a autonomia, fortalece a autoestima e abre espaço para escolhas mais conscientes nos relacionamentos e na vida. Sentir prazer é, portanto, um ato de soberania sobre si mesma — uma forma de reivindicar o próprio corpo, a própria história e a própria potência de viver com mais presença, prazer e verdade.


No entanto, em um contexto patriarcal de sociedade, com tanta repressão sobre o prazer feminino, é compreensível que muitas mulheres não se sintam seguras para expressar todo o prazer que podem sentir, por medo de serem julgadas, abandonadas, punidas, desprezadas, invadidas e por aí vai. Aquela que sente prazer não cabe mais em certas caixinhas que as mulheres se acostumaram a caber - algumas até mesmo acreditam que o melhor é permanecer nestas caixinhas. 


O que queremos dizer aqui é que a anorgasmia é a manifestação de uma luta interna entre uma parte que deseja dizer sim ao seu potencial de vida e prazer, e outra parte que teme as consequências desse sim, manifestando culpa, vergonha e medo em experimentar a sexualidade de maneira expandida. Neste estado de luta interna, o corpo não consegue encontrar o espaço para relaxar, confiar e se entregar. 


Há muitos fatores que podem bloquear o prazer: a desconexão com o próprio corpo, a vergonha de sentir, a ideia de que é preciso performar para merecer afeto. Algumas mulheres carregam histórias de dor, traumas silenciosos, experiências de abuso ou repressão, que ainda reverberam no sistema nervoso e dificultam a entrega. Outras simplesmente nunca foram convidadas a explorar seus próprios corpos com curiosidade e acolhimento.


A anorgasmia é uma experiência mais comum do que se imagina — e ainda profundamente silenciada. Entre culpas, pressões e cobranças, muitas mulheres aprendem a fingir o que não sentem, a ignorar o que seus corpos pedem, a engolir a frustração como se fosse algo natural. Mas talvez esse “não orgasmo” seja um pedido amoroso do corpo: “me escuta, me sente, me cuida”.


A ausência de prazer também pode estar ligada a um cotidiano que sobrecarrega, esgota e anestesia. Corpos tensos, respirações curtas, mentes aceleradas. A ausência de orgasmo, nesse contexto, não é estranha — é um sintoma coerente. Antes de abrir-se ao prazer, talvez seja preciso aprender a pausar, a respirar, a amolecer. Voltar a sentir o que foi congelado.


Resgate pelo Corpo


Ouvi estes dias de uma mulher que chegou até as sessões de terapêutica tântrica com um quadro de anorgasmia algo impressionante, e que me incomoda. Segundo ela, a sua psicoterapeuta afirmou a ela que somente usando a fantasia é possível chegar ao orgasmo. Este tipo de pensamento enviesado, baseado prioritariamente em teorias acadêmicas, despreza completamente a possibilidade da resposta reflexiva do corpo, algo que ocorre preferencialmente sem a presença da psicogenia que fantasia a realidade para que se crie um “ambiente favorável” para que o climax seja experimentado. Em minha opinião, baseada em evidências de 12 anos de atuação com a terapêutica tântrica e neoreichiana, este tipo de afirmação está equivocada, e não irá ajudar esta pessoa a desorganizar os sistemas de defesa que a impedem de abrir-se para o prazer que o corpo é capaz de experimentar. 


O Tantra nos lembra que o orgasmo é mais do que uma contração muscular ou um ápice momentâneo de prazer. É uma expansão. Um movimento interno de abertura, de entrega ao fluxo da vida, de conexão com aquilo que pulsa no corpo. Orgasmo decorre - e ao mesmo alimenta - um estado vibracional no corpo, que tem a vocação de se espalhar e ocupar todos os espaços do nosso ser. Após a passagem deste estado vibracional, quando o corpo se direciona para o estado de integração, algo já se transformou. E essa experiência pode ou não passar pelo órgão genital — mas sempre envolve o corpo por inteiro.


Quando reduzimos o orgasmo ao clímax genital, corremos o risco de transformar a sexualidade em uma corrida por resultados. O verdadeiro convite do prazer é outro: é o de estar inteira na experiência, sem metas, sem desempenho, sem máscaras. 

Para que isso seja experimentado, é preciso habitar satisfatoriamente o corpo! Só pela via psicoterapêutica se avança até certo ponto, mas não se trabalha o desencouraçamento e os mecanismos de defesa condicionados em anos de supressão do fluxo de vida no corpo.

Portanto, pelo viés da terapia corporal tântrica, encaramos a  anorgasmia como um ponto de partida — um chamado para expandir a compreensão sobre o que é realmente “habitar o corpo”.


Tantra como caminho de cura


O Tantra não propõe metas, mas mergulhos. Ele nos convida a viver a sexualidade como uma prática de consciência, de presença e de amor. No lugar da performance, o Tantra propõe entrega. No lugar da técnica, propõe sensibilidade. A experiência tântrica nos mostra que o prazer não é algo a ser conquistado, mas algo a ser autorizado.


Na visão tântrica, o orgasmo é uma oração do corpo. E é por isso que ele pode — e deve — ser cultivado com reverência. Quando caminhamos por esse caminho, aprendemos que o prazer profundo só floresce onde há liberdade de expressar o que estamos sentindo, independente de papéis sociais. Aqui no Tantra sabemos que a cura não está em “chegar lá”, esse lugar considerado pela cultura como sendo “especial”; a cura está na permissão e no estado de presença com o corpo e suas manifestações de vida. 


Se você é uma mulher que se reconhece nesse lugar — da ausência de orgasmo, da frustração silenciosa ou da dúvida sobre sua própria capacidade de sentir prazer — saiba: há caminhos incríveis para que você coloque em prática a ressignificação, se conectando de forma amorosa com o seu corpo, com a sua energia, com a sua sensorialidade. 


Na Kaya Terapias, oferecemos espaços seguros e profissionais para que mulheres possam reencontrar sua potência orgástica, seu direito ao prazer e à presença. Caminhos que integram o corpo, a emoção, a mente e a espiritualidade. Se você sente esse chamado, talvez seja hora de escutar o que o seu corpo tem a dizer. E dar a ele a chance de ser, enfim, ouvido.

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