Práticas corporais e conexão com o corpo
- Shantideva
- 21 de ago.
- 5 min de leitura
Estar conectado ao corpo significa estar plenamente consciente e atento às sensações físicas, emoções e pensamentos que surgem à medida que a vida vai nos ativando em seus diversos eventos. Significa habitar plenamente a própria experiência, criando assim as condições para uma resposta adequada e madura, que preserve a vida do corpo e a saúde física, emocional e espiritual.
Por outro lado, estar desconectado do corpo significa não ser capaz de perceber adequadamente as sensações, movimentos energéticos e a expressividade do corpo. Nos estados de desconexão, estamos atentos apenas ao que pensamos sobre os eventos, e temos dificuldade em perceber como somos afetados pelos eventos da vida.
A vida moderna alimentando a desconexão com o corpo
Alguns fatores estão diretamente ligados à vida moderna, onde há excesso de informações e altas expectativas quanto a desempenho e comportamentos. No atual contexto, estamos vivendo a vida de forma cada vez mais acelerada, alimentando uma cultura de produtividade, com excesso de estímulos digitais, cada vez mais sedentários, consumindo alimentos cada vez mais industrializados e inadequados ao corpo humano, cada vez mais desconectados com a natureza e sem estado de presença.
Isso gera estresse intenso ou crônico, cansaço extremo, ansiedade, depressão e traumas, especialmente abusos emocionais e físicos durante a infância ou vida adulta.
Além disso, a vivência negativa com a própria imagem corporal pode gerar insatisfação e afastamento da percepção real do corpo. Esses fatores promovem uma ruptura na comunicação entre mente e corpo, dificultando o reconhecimento das sensações físicas e emocionais, o que pode levar a quadros como a despersonalização, em que a pessoa se sente observadora externa do próprio corpo e pensamentos.
A cultura patriarcal e as tradições religiosas alimentando a desconexão com o corpo
Não é somente a vida moderna que nos desconecta do corpo. Trazemos muita influência do modelo patriarcal de sociedade, predominantes há alguns milênios. O patriarcado estabelece normas rígidas sobre como homens e mulheres “deveriam” se comportar, reprimindo a espontaneidade corporal e a expressividade. Homens foram - e continuam sendo - ensinados a não chorar, a não demonstrar fragilidade; mulheres, a não expressar desejo ou raiva. O corpo, especialmente o corpo feminino, foi objetificado, reduzido a função ou aparência, em vez de reconhecido como espaço de consciência e prazer. Prazer e intimidade foram associados à vergonha ou pecado, transformando o corpo em algo a ser controlado, não celebrado.
Soma-se a esse legado da cultura patriarcal a visão das tradições religiosas predominantes sobre a relação com o corpo e a espiritualidade. Muitas doutrinas colocaram o corpo como sendo inferior em relação à alma, sugerindo que o corpo é um obstáculo à elevação espiritual. Os desejos naturais, sobretudo os sexuais, foram associados à culpa e à punição, criando medo da própria energia vital. Assim, muitas práticas que negavam os impulsos do corpo passaram a ser vistas como caminho de pureza espiritual. Ao regular comportamentos corporais (sexualidade, prazer, expressões emocionais), a religião se tornou uma ferramenta de disciplina e obediência.
O que é estar desconectado do corpo?
Significa viver no automático, respondendo aos estímulos da vida sempre da mesma maneira. Desconectados do corpo, seguimos na vida adulta respondendo de maneiras parecidas com a que respondemos na infância, desconsiderando que as condições que provocaram os temores da criança não estão mais presentes. Quando crianças, não possuíamos autonomia e capacidade de elaboração, e sofremos por medo do abandono, da rejeição, da violência contra nós, da punição humana ou divina, dentre tantos outros medos. Como adultos, desenvolvemos habilidades e recursos físicos e cognitivos para responder de maneira mais madura, mas desconectados do corpo, não conseguimos nos desidentificar das maneiras imaturas e infantis de responder aos sinais de ameaça (reais ou frutos de projeções da mente).
Perder o contato com o corpo significa perder a bússola interna, pois o corpo é o nosso principal guia para entender o que sentimos, pensamos e precisamos em cada momento. Quando essa conexão se perde, dores, cansaço, fome, ou mesmo emoções não são percebidos, e perdemos a capacidade de saber quais são as nossas reais necessidades e limites.
A tomada de decisões fica prejudicada, e isso afeta o nosso bem-estar físico e emocional. Não ter os sinais internos disponíveis para percepção gera um estado de confusão e desconforto. Ficamos em estado de vulnerabilidade frente às turbulências da vida.
Sinais de desconexão corporal
Há alguns sinais que demonstram que você está vivendo de forma desconectada com o seu corpo. Um dos principais tem a ver com a dificuldade de sentir prazer e relaxar. Especialmente na sexualidade isso cobra um preço alto, o que faz com que muitas pessoas se “esforcem” para chegar ao prazer, produzindo experiências neuróticas, agressivas, apressadas e empobrecidas em sua sexualidade. A verdadeira sexualidade é experimentada em estados de relaxamento e entrega aos fluxos internos, e estados de tensão e luta, anestesiamento, dissociação ou travamento são interferências egóicas na espontaneidade da programação biológica.
Muitos de nós experimentamos tensões crônicas em nosso corpo, sem saber exatamente qual a origem delas. Quando estamos desconectados do corpo, deixamos de escutá-lo e processar as emoções no momento em que elas surgem. O que não é sentido ou expresso fica retido sob a forma de contrações musculares e um estado constante de ativação do sistema nervoso. Por não usamos apropriadamente a escuta corporal, estamos sempre em estados de alerta, prontos para lutar, fugir ou congelar. Com o tempo, isso se torna uma resposta crônica do sistema. Esse estado de tensão se transforma em rigidez, dores e bloqueios energéticos. Como dissemos antes, mesmo que não haja mais uma ameaça real, o estado de defesa permanece ativo, moldando nossos comportamentos e decisões.
As emoções são experiências energéticas que pertencem principalmente ao corpo, para surpresa de muitos. Quando algo nos ativa, um movimento energético é organizado para lidar com essa ativação, e ele acontecerá de maneira condizente com o tipo de emoção que estamos experimentando. Assim, a raiva movimenta certa forma de responder e mobiliza movimentos energéticos do centro para a periferia do corpo, mobilizando certos grupos musculares. A tristeza, por sua vez, mobiliza movimentos energéticos da periferia para o centro do corpo. Cada emoção tem suas particularidades de resposta, mas todas elas acontecem principalmente no corpo. Não expressar as emoções de maneira madura, espontânea e responsiva é um sinal de desconexão com o corpo.
Práticas Corporais como caminho de resgate da conexão com o corpo
As práticas corporais são caminhos diretos para restaurar a presença no corpo e apoiar o autoconhecimento, pois trazem a atenção de volta para as sensações, o movimento e a respiração. Elas apresentam uma maneira potente de se desvincular do fluxo incessante de pensamentos, ajudando a pessoa a experimentar o corpo como um lugar de percepção, expressão e autorregulação.
Movimentos energéticos, toque terapêutico e respiração consciente são ferramentas poderosas para permitir que as emoções encontrem espaço para se expressar de maneira madura e espontânea. As práticas nos ajudam a criar as condições para liberar tensões acumuladas. abrindo assim espaço para que a energia vital volte a circular de forma mais fluida, favorecendo tanto a saúde física quanto emocional.
As práticas corporais são ferramentas poderosas para a conexão com o corpo, tais como a terapêutica tântrica, o Renascimento, as terapias de respiração, o Pulsation, as meditações ativas, a sexualidade somática e os trabalhos com movimento energético. As práticas corporais nos ensinam a confiar novamente no corpo como uma bússola interna, capaz de guiar escolhas, estabelecer limites e criar vínculos mais verdadeiros.
Reconectar-se pelo corpo é, portanto, um caminho de cura e de retorno à inteireza. Essa é a missão da Kaya Terapias!!








Comentários